NOVAS CARTOGRAFIAS ON LINE: MAPEAMENTOS COLABORATIVOS REALIZADOS POR ARTISTAS COM O USO DA INTERNET.

 

Apresentação

 

O propósito deste projeto é investigar usos e estratégias cartográficas utilizadas por artistas na internet e desenvolver pontes teóricas já que, como diz Anne Cauquelin[1], a Arte Contemporânea não se baseia apenas no universo estético, mas cultural, que se relaciona, se mistura e colabora com outras áreas do conhecimento como a antropologia, a psicanálise, a geografia, a tecnologia…

Neste caso, será pesquisado o espaço e suas representações considerando as relações com a arte e a tecnologia. Percebe-se que o espaço, como categoria de análise conquistou um novo significado dentro das ciências humanas e da sociedade como um todo. Afinal, atualmente, mais do que nunca a técnica está presente no cotidiano modificando a relação dos sujeitos com o espaço. Modificações estas que impulsionam outras sensibilidades: a aceleração contemporânea, o encurtamento das distâncias, o comprometimento ambiental (o meio ambiente não é mais algo distante, os recursos não são mais infinitos), a simultaneidade, a fluidez, a imaterialidade. Dinâmicas que se intensificam com o fenômeno da globalização. Desta forma, a reflexão sobre o espaço é visivelmente necessário.

Ao produzir o artista contemporâneo se vê imerso e em interação num mundo de problemáticas, tecendo um pensamento plástico[2], onde o espaço não mais se apresenta como uma materialidade estética e geométrica, mas como pulsão, não mais como suporte e palco das ações, mas campo de relações (o geógrafo Milton Santos diria, campo de forças) objetivas e subjetivas, materiais e imateriais, com temporalidades e espacialidades.

Observa-se que diversas categorias geográficas estão presentes na poética dos artistas e dos coletivos: território, lugar, rede, fluxos, cotidiano, espaço urbano e suas expressões e representações: cartografias, mapas, trajetos, percursos, escalas…

O que é mais visível como referência teórica para os artistas, ou pelo menos como estratégias de ação são os conceitos situacionistas que estabelecem uma relação crítica e singular com o espaço, com as instituições e com o cotidiano.

Estratégias como o detóurnement, o desvio e a deriva, aparecem não apenas nas artes, mas também nas ciências humanas, são formas de investigação do espaço que implicam numa ação e consideram complexidades e subjetividades. Assim como a Psicogeografia, efeito do meio geográfico sobre o comportamento afetivo, os Mapas subjetivos, estão no vocabulário dos artistas contemporâneos. Afinal, este “contágio” pode-se observar desde artistas como Hélio Oiticica que vai inclusive ter contato com Guy Debord, autor da obra situacionista mais conhecida “A sociedade do espetáculo”.

O geógrafo Milton Santos se preocupou em sistematizar uma metodologia e uma epistemologia estritamente espacial, inicia suas questões sempre a partir do espaço, daí em alguns momentos denominar seu campo de trabalho de “espaciologia” a ciência do espaço ou a ciência das técnicas. Suas proposições teóricas se aproximam das preocupações dos artistas contemporâneos ao tratar as categorias de lugar, território, e as implicações da globalização nas ações dos sujeitos. Cria categorias como psicoesfera para tratar do universo simbólico, afetivo, essencialmente imaterial, que através das ações dos sujeitos produz e transforma o espaço geográfico.

Segundo ele “(…) o espaço é hoje um sistema de objetos cada vez mais artificiais, povoado por sistemas de ações igualmente imbuídos de artificialidade, e cada vez mais tendentes a fins estranhos ao lugar e a seus habitantes.”[3] As ações cotidianas numa aparente liberdade submetem-se cada vez mais a um cotidiano regrado e regulado por uma razão exterior.

“As ações são cada vez mais estranhas aos fins próprios do homem e do lugar. Daí a necessidade de operar uma distinção entre a escala de realização das ações e a escala do seu comando. Essa distinção se torna fundamental no mundo de hoje: muitas ações que se exercem num lugar são o produto de necessidades alheias, de funções cuja geração é distante e das quais apenas a resposta é localizada naquele ponto preciso da superfície da Terra.” (SANTOS, 1996, p. 65).

 

As proposições artísticas que queremos tratar se utilizam das novas tecnologias e do suporte da internet para questionar o uso do espaço propondo ações participativas gerando mapeamentos que se configuram como a representação da experiência no espaço.

Tais práticas artísticas partem de ações e intervenções e se utilizam de mídias locativas (aparatos de localização e posicionamento digital, GPS, Wi-fi) e de jogos pervasivos (jogos que pretendem envolver a comunidade através da construção, participação e exploração do ambiente concreto) para a construção dos mapas utilizando-se da web para documentar, desenvolver e divulgar suas ações. Ou seja, são mapeamentos que tem aspectos colaborativos e buscam a democratização dos processos de realização de um trabalho de arte.

O termo cartografia tornou-se uma referência para além do uso tradicional estabelecido pela disciplina geográfica, conceito que foi apropriado por muitas áreas do conhecimento que implica a idéia de mapear além de elementos fixos na paisagem, fluxos, ações, acontecimentos, relações sociais, afetivas que se materializam ou não no espaço.

As cartografias valorativas com suas diferentes terminologias: cartografia afetiva (Sueli Rolnik), mapa psicogeográfico (situacionismo), mapeamentos colaborativos, são formas de representação do espaço que consideram aspectos subjetivos, imaterais e poéticos, são enfim evidências da relação dos sujeitos com o espaço. Alguns trabalhos já levantados como o Projeto Mapeando Lençóis[4] e o Plataforma Multiusuário Estação Carijós[5] envolvem a produção de mapas a partir da experiência de pessoas num dado espaço utilizando-se de mídias locativas na sua “confecção”, difusão e armazenamento.

Pretende-se pesquisar como se dá esta relação conceitual e empírica da arte contemporânea e dos artistas (e seus discursos) com categorias espaciais, em especial as que se relacionam a formas de representação pautadas em mapas produzidos através da internet.

Serão priorizados trabalhos que envolvam a produção de mapas e propostas de cartografias na internet, sejam como princípio norteador do trabalho, estratégia para pensá-lo, ou como resultado da experiência. Realizando um levantamento de trabalhos que se utilizam desta estratégia nos estados da região sul e sudeste. Desta forma, serão escolhidos representantes dos projetos levantados para entrevista e coleta de dados.  Buscar-se-á apontar artistas, grupos e coletivos de artistas que se utilizam de mapas em seu trabalho e cuja discussão do espaço seja vital à sua poética, considerando aqui artistas que atuem no espaço público, que proponham interatividade, cujas linguagens transitem na performance, instalação e intervenção urbana.

O processo da pesquisa terá seu conteúdo disponibilizado num blog para assim oportunizar o debate e a reflexão com um público mais amplo seja ele especializado ou não.

Objetivos

– Identificar, sistematizar e relacionar os usos do conceito de espaço no contexto da arte digital na literatura teórica e crítica.

Mapear e contextualizar iniciativas artísticas que envolvam mapas e estratégias cartográficas, através de intervenção urbana e/ou mídia locativa e que se utilizem do suporte da internet de modo colaborativo e aberto na região sul e sudeste do país.

– Promover uma reflexão teórica que proporcione uma visão crítica de como a cartografia colaborativa na internet está inserida na produção artística contemporânea.

Justificativa

Atualmente está ao alcance das pessoas a possibilidade de fazer mapas em poucas etapas, é cada vez mais freqüente a criação de mapas personalizados com geotags referenciais. Isto propõe novas cartografias que redesenham o espaço de acordo com a apropriação deste pelos sujeitos, para além das representações institucionais e oficiais que tem seus limites, interesses e ideologias. É a inevitável inserção da tecnologia e da internet na vida das pessoas, mas quais são seus usos e alcances no universo da arte contemporânea?

Como as novas tecnologias modificam a relação com o espaço? Neste sentido, como tem funcionado as novas estratégias cartográficas realizadas pelas práticas artísticas? Visto que estes propõem uma subversão da cartografia oficial através de projetos colaborativos que incitam um olhar e uma apropriação sobre o espaço público. Como as proposições artísticas geram novas práticas e consciência do espaço? Como relacionar geografia e arte digital?

Presente no repertório de muitos artistas contemporâneos percebe-se a questão do espaço, que em alguns casos se expressa na utilização de estratégias de representação cartográfica inspiradas no situacionismo e nas cartografias subjetivas de Delleuze e Guatari. Estas geram experiências artísticas que desenvolvem mapeamentos on line de caráter colaborativo, onde a internet constitui suporte, meio, inspiração para realizá-lo.

Desta forma, mostra-se importante contextualizar conceitos geográficos e estratégias cartografias tão amplamente usadas na arte, para assim identificarmos propósitos e formas de pensamento dos artistas.

Encontra-se uma produção crítica e teórica sobre o tema que ainda não é extensa ou exaustiva, principalmente no que se refere à produção brasileira. Evidencia-se a importância de um aprofundamento de conceitos e um mapeamento dos trabalhos que trafegam na interface arte, geografia, tecnologia, internet. A intenção é pesquisar a produção teórica nesta convergência de conteúdos e aprofundar experiências.

Este trabalho se propõe a pesquisar as novas possibilidades de uso da internet propostas por artistas brasileiros, trazendo um embasamento teórico que auxilie no reconhecimento de uma vertente de ação. Propõe uma reflexão sobre a ação e referência para novas ações e inspiração para continuidade e amadurecimento.


[1] CAUQUELIN, Anne. A arte contemporânea. Portugal: Editora Rés, 1993

[2] Expressão de Pierre Francastel in FRANCASTEL. Pierre. Imagem, Visão e Imaginação. Portugal: Edições 70, 1987.

[3] SANTOS, Milton. A natureza do espaço. Técnica e Tempo. Razão e Emoção. São Paulo: Editora Hucitec, 1996. Pág. 51.

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